Carregando...

A ACÉDIA E A PERSEVERANÇA SEGUNDO EVÁGRIO PÔNTICO



Continuando nossa reflexão, vamos retornar na história do monaquismo a Evágrio Pôntico. Evágrio(345-399) pertence a terceira geração dos monges do deserto do Egito. Não é o inventor da noção da acédia mas um autor antigo que estudou o referido tema com maior precisão.

A palavra akedeia ou akedianão era desconhecida para os autores pagãos: neles expressava a ideia de despreocupação, negligência, indiferença. Literalmente significa falta de interesse por nada. Mas ao final, seu significado era bastante vago. No que se refere a literatura bíblica, o termo akedia aparece várias vezes na versão grega da Bíblia, nos Setenta, mas não a encontramos no Novo Testamento. Sem dúvida há passado diretamente dos Setenta aos Padres Gregos.

Na literatura monástica anterior a Evágrio se menciona quatro vezes na vida de Santo Antão, entre os efeitos que produzem na alma as aparições demoníacas. Como em muitos conceitos do vocabulário acético dos monges, a noção de akedia tem tantos matizes que resulta praticamente impossível traduzi-la com precisão com uma só palavra. Os latinos, Cassiano o primeiro, de ordinário conservaram a palavra grega, transcrevendo-a de diversas formas: acédia, acídia, accidia. Faremos a mesma coisa, conservando a palavra acédia. Certamente não existe outra palavra que possa abraçar o rico e técnico significado que Evágrio tenha dado a palavra grega. Tédio, torpeza, preguiça, aversão, cansaço, decadência, languidez, indolência, desalento, etc... podem ser componentes da acédia, mas existe um estado de ânimo sui generis, ligado ao estilo de vida do anacoreta. Precisamente por querer reduzir a um ou outro de seus componentes, é portanto que na época moderna, chegou a esquecer progressivamente a realidade fundamental da acédia.


1. ORIGEM E CARACTERíSTICA DA ACÉDIA


Evágrio é célebre – e com razão – por sua grande agudeza psicológica. E no entanto, devemos observar que sua psicologia não é um fim em si, senão que uma ajuda a refletir sobre como fazer que o homem volte a ser de novo capaz de Deus (Capax Dei). E isto não é possível, senão depois das vitórias sobre as paixões, vitória que por sua vez necessita, previamente, um conhecimento muito preciso dos mecanismos dessas paixões e dos demônios que as atiçam. Segundo Evágrio, todas as paixões têm uma dupla origem que correspondem a uma dupla natureza corporal e espiritual do homem. Provem tanto da parte concupiscível (epithymía), como a parte irascível (thymós), que juntas formam o que Evágrio chama de parte passional da alma; desde lá sobem e obscurecem a mente (nous), cuja atividade específica e sublime é conhecer a Deus.

Entre essas paixões, existem oito que se deve ter uma maior atenção. Evágrio as chama de pensamentos genéricos (genikotatoí logismói), não só porque deles procedem todos os outros, senão também porque se entrelaçam de múltiplas formas, ou seja, porque um dá lugar a outro ou porque eles são em uma relação de aparente oposição.

Em Evágrio os oito pensamentos genéricos se encadeiam seguindo uma ordem bem definido: primeiro os mais grosseiros e sensuais (gula e fornicação), seguidos de suas imediatas consequências (avareza, cólera e tristeza); e finalmente, os mais inatingíveis, que de ordinário não aparecem senão a um nível mais elevado da vida espiritual, quando se já venceram os primeiros (vaidade e orgulho). A acédia, como tal, se situa mais ou menos entre estas de uma série de vícios, porque provem tanto das paixões mais grosseiras como das paixões mais sutis, que sempre acabam por retornar as paixões mais baixas. Embora a acédia forma parte dos oito pensamentos (logismoi), se distingue deles por sua natureza essencialmente diferente. Se é certo que os outros oitos pensamentos não são senão ligações de uma mesma cadeia, a acédia seria a última ligação, porque de imediato não a segue nenhum outro pensamento mal.

Se bem que as outras paixões nascem sempre de uma outra faculdade irracional da alma, a acédia se distingue pela particularidade de que se trata de um fenômeno complexo, que resulta do entrelaçado das faculdades irracionais da alma, a irascível e a concupiscível, que aparecem em simultânea oscilação e por um longo período. Esta complexidade implica comportamentos tão contraditórios como a languidez e a indolência, de uma parte, e a atividade febril e o excesso de zelo desenfreado, de outra. A acédia se apresenta como uma espécie de beco sem saída na vida de uma alma. A desengana de tudo o que existe (concupiscível), paralisa as funções naturais da alma. A disfunção destas duas faculdades da alma, a irascível e a concupiscível, provoca a queda de tensão (atonía) da alma. Ademais, a duração do fenômeno, resultante de sua natureza complexa que associa outros pecados, contribuem também a aumentar seu caráter insuportável. E finalmente, acaba sendo uma expressão de uma profunda desintegração da pessoa humana, uma asfixia da inteligência que é o lugar da imagem de Deus e, portanto, o lugar o ser pessoal. Passando pela inteligência, a acédia chega a afetar o princípio da atividade espiritual que reside no coração. E nesse sentido não é só uma crise passageira, senão uma enfermidade grave e crônica do coração, um estado de alma que impregna e ameaça desorientar tudo o que toca.




A série sobre Acédia - O Mal desconhecido do nosso tempo continua na próxima semana com o tema: "As Manifestações da Acédia".


Até lá!

Leia mais sobre este tema aqui!



Dom João da Cruz, OSB é monge na Abadia da Ressurreição - Ponta Grossa/PR.

Estudou filosofia na PUC Minas e atualmente estuda teologia. Prega retiros na linha da espiritualidade para seminaristas religiosos e comunidades.

Contato: aquinomr@gmail.com

26 visualizações
Comunidade Católica Deus Existe

Comunidade Deus Existe © 2009 - 2020 Todos os direitos reservados