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Conselhos Evangélicos e a vocação - Por Dom João da Cruz




O Catecismo da Igreja Católica destaca que os Conselhos Evangélicos, em todos os seus aspectos, são propostos a todos os discípulos de Jesus. Ao ler-se no catecismo a palavra “todos”, vale ressaltar que ser discípulos de Jesus não se encontra restrito unicamente aos presbíteros e religiosos, senão a todos os batizados. O anseio, a inquietação da perfeição da caridade, à qual são convidados também todos os cristãos, exige daqueles que se decidem inteiramente pelo Senhor o dever de praticar a castidade no celibato pelo Reino assim como, a pobreza e obediência.

A meta dos Conselhos Evangélicos é apartar tudo o que pode impedir a caridade e nos transformar em cristãos “refratários”, insensíveis, indiferentes. Os Conselhos, igualmente, manifestam a plenitude do desenvolvimento da caridade, que jamais se mostra insaciável, ávido por algo mais. Eles apontam caminhos mais diretos, vias mais acessíveis e devem ser praticados conforme a vocação de cada um e do lugar onde se encontram na Igreja.

A Exortação Apostólica pós-sinodal Vita Consecrata, do Papa São João Paulo II, salienta que “mediante a profissão dos conselhos evangélicos, os traços característicos de Jesus – virgem, pobre e obediente – adquirem uma típica e permanente “visibilidade” no meio do mundo; é parte integrante da vida da Igreja, e a sua prática torna Cristo presente na vida da Igreja e no mundo, no tempo e no espaço (n.5); a sua profissão pública segundo um carisma específico e em uma forma estável de vida comum, é um serviço apostólico ao povo de Deus (n.9); é sinal de profecia para os irmãos e para o mundo (n.15); é um sinal profético que exige e expressa o dom de si (n.16); requer e manifesta o desejo explícito de conformação com Cristo (n.18); é um dom da Trindade (n.20); pertence a vida e a santidade da Igreja (n.29); é singular e fecundo aprofundamento da consagração batismal (n.30); ajuda a desenvolver o sacramento recebido no sacramento da confirmação (n.30); é um caminho privilegiado para a santidade (n.35); é a expressão dos frutos espirituais recebidos dos fundadores e fundadoras (n.48); torna a pessoa livre por causa do Evangelho (n.72); leva a pessoa ir aonde Cristo foi e fazer o que Ele fez (n.75)”.

Para abraçar e viver nossa vocação, “Deus deixou o homem nas mãos de sua própria decisão” (Eclo. 15,14), decisão essa que é uma escolha livre e consciente; nossa vida de cristão que abraçou um lugar na Igreja vivemo-la quais enviados ao mundo; o mandato de Jesus nos tornou testemunhas. E é no meio do mundo, no lugar e no estado de vida que escolhemos para irradiar e radicalizar o nosso batismo que devemos dar razão da nossa maneira de viver. No dizer de São Paulo, somos o “espetá- culo do mundo” e devemos anunciar, com a nossa vida, a quem servimos e por quem vivemos.

Nossa presença no mundo seria um renovado esforço para compreender a realidade em que vivemos. A “fuga mundi” continua válida, enquanto não devemos assimilar as forças que se opõem ao Reino. Porém essa primeira atitude é essencial, se quisermos ser evangelizadores ou testemunhas ou, simplesmente, referências do mundo que busca a Deus. Estamos preocupados de que o mundo nos entenda, por outra, de dar-lhe razões para que veja que somos válidos.

É necessário levar a sério o homem e suas crises. O que não podemos é, simplesmente, condenar o que vemos nem rejeitar porque não nos apraz. Ainda que apareçam situações que nunca possam ser assumidas, é preciso levar a peito o que vemos e o que ocorre a nosso lado. Não podemos limitar-nos em ser críticos, censuradores, fiscais. Não somos, segundo as palavras de um religioso que frequenta nosso mosteiro, “vendedores na feira do cotidiano”. Devemos ser sim, protagonistas, sujeitos responsáveis disso. Não nos cabe o trabalho de carimbar, uma vez de não haver sido isso que Jesus nos pediu, senão para ser testemunha. Por isso ao deparar-se com novos areópagos, São Paulo teve que mudar sua linguagem. Deus encontrará uma solução em todas as situações, com uma ressalva: que tenha mãos que Ele possa tocar pés que Ele possa andar e voz para que Ele possa proclamar. No episódio de Emaús, Jesus sabia que os discípulos estavam inteirados a respeito de tudo de sua vida, contudo não O conheciam. Quando Ele se tornou participante e solidário dos sentimentos e situações que os entristeciam, esses perceberam quem era Aquele que falava com eles. Falta de nossa parte como batizados que nossa voz entre e mova os corações, transformem vidas com nosso testemunho e realizem mudanças, mudanças essas que principiam em nós. Em nossa sociedade faltam referências; pessoas que testemunhem na alegria a opção abraçada e mostre no mundo que vocação além se ser, como aprendemos, um chamado de Deus, é lugar e que devemos assumir as consequências da opção abraçada na alegria de saber a quem servimos.

Que Deus nos conceda a graça de viver os conselhos evangélicos e as consequências da opção abraçada! E a você, caro leitor, que se encontra em discernimento vocacional para radicalizar o seu batismo na vida religiosa, sacerdotal ou matrimonial e providencialmente se deparou com o presente artigo, que o Espírito Santo o acompanhe, com as luzes necessárias. Deus o abençoe!

Dom João da Cruz, OSB.


Dom João da Cruz, OSB é monge na Abadia da Ressurreição - Ponta Grossa/PR.


Estudou filosofia na PUC Minas e atualmente estuda teologia. Prega retiros na linha da espiritualidade para seminaristas religiosos e comunidades.

Contato: aquinomr@gmail.com

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