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A Misericórdia deixa-se encontrar - Por Dom João da Cruz.OSB


O Papa Francisco, dentro do ano jubilar da misericórdia, nos pede que “vivamos com intensidade esse tempo para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus”*. Precisamos contemplar esse mistério e ter a consciência de que esse tempo é via para a nossa salvação. Jesus, a misericórdia será sempre maior do que o nosso pecado, e ninguém pode colocar limites ao Amor que perdoa.


A misericórdia deixa-se encontrar e deixa-se achar. O Santo Padre, na bula Rosto da Misericórdia número 09 - Misericordia vultus, nos fala sobre as parábolas dedicadas a misericórdia e nos diz que “Jesus nos revela a natureza de Deus como de um Pai que não se dá por vencido enquanto não tiver dissolvido o pecado e superada a recusa com a compaixão e a misericórdia”.


Recentemente, em um retiro, assisti a uma conferência em que a conferencista partilhou com os retirantes a experiência de ser avó e do relacionamento com os netos. Em seu dizer, quando esses vêm visitá-la, ela, com o intuito de descontraí-los, inventa de brincar de esconde-esconde. O truque por ela usado, a fim de que eles a encontrem, consiste em deixar sempre uma parte do corpo fora para que a percebam. Por exemplo, ao esconder-se atrás de uma parede ou de uma das colunas de sua casa, deixa um dos cotovelos ou o joelho à vista, ou então simula uma crise de tose para que possam encontrá-la. E quando a encontram, é uma alegria indescritível. Não se contentando com isso, falou outrossim de outra estratégia que usa com os netos: na brincadeira do esconde-esconde, ela fica em determinado lugar da casa, e quando eles andam à sua procura, ela, sorrateiramente, vai por detrás e agarra-os, fazendo uma festa.


Essas experiências desta amiga minha mostram-me as duas atitudes de Deus que constatamos em Jesus, e que o Papa vem recordar- nos: ou Ele provoca encontros ou vai colocar-se por detrás e nos agarra sorrateiramente. Diz o Papa: “Nas parábolas da ovelha extraviada e da moeda perdida, e a do filho pródigo (Lc 15, 1-32), Deus é apresentado sempre cheio de alegria, sobretudo quando nos perdoa. Nelas encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia é apresentada como a força que tudo vence, enche o coração de amor e consola com o perdão. ”


Na parábola da ovelha perdida (Lc 15,4-7), podemos observar que ela se perdeu porque se afastou do pastor. Era uma ovelha teimosa e que “recusava a misericórdia do pastor”; uma ovelha que não se deixava pastorear, que se distanciou e não teve uma atitude submissa, gerando desse modo para si feridas e o afastamento do rebanho. O pastor, em sua busca incessante, vai e, com o cajado, a agarra por detrás e a suspende fazendo-a voltar ao redil. Em nossa caminhada, quantas vezes também nós nos desviamos da meta, dos ideais que propomos em nossa caminhada e nos dispersamos, gerando também em nós feridas, até que Jesus, o bom Pastor, em determinado momento de nossa caminhada, nos surpreende e nos faz voltar ao redil?! Muitas vezes sem entendermos, Ele vem a nosso encontro e, com o cajado, nos puxa, por outra, nos coloca na sua vontade, no seu redil.


Outra parábola propícia para esse momento é a da dracma pedida (Lc 15, 8-10). Diz a tradição judaica que quando uma mulher se casava, ganhava dos pais um colar com dez dracmas ou dez moedas que a acompanharia para toda a vida. Perder uma dracma ou moeda significava ter os esponsais do matrimônio em risco, um tipo de superstição da época. Para completar, as casas daquela época tinham o chão escuro e as janelas não eram de grandes dimensões tal como hoje as conhecemos, mas pequenas frestas que deixavam penetrar um tanto de luz em seu interior. À luz de toda essa explicação, percebemos que Deus também faz esse mesmo movimento conosco Ele toma a iniciativa de deixar-se encontrar. É preciso tomar a iniciativa! Ou então empregando o termo do Papa Francisco, é preciso primeirear**.


No primeiro caso, a ovelha perdida, devido às suas limitações de faro e de visão, não consegue voltar, ao passo que na parábola da dracma, a mulher que perdeu a dracma do seu casamento, busca-a desesperadamente. Tanto para o pastor quanto para a mulher - que são a figura do Pai - a figura de Jesus é o amor que os levam ir desesperadamente a seu encontro, a buscá-lo. Deixar-se encontrar é um movimento de amor e de amor de esposo. Eu me deixo encontrar e o busco ao mesmo tempo. São movimentos iguais. Não é um acaso. Não foi ocaso que Jesus se encontrava junto do poço de Jacó; não foi mera casualidade que Jesus encontrou Zaqueu (Lc 19,2-10); e não foi por acaso o encontro da mulher com fluxo de sangue que tocou na barra do manto de Jesus e ficou curada (Lc 8, 43-48). A misericórdia deixa-se encontrar. Jesus, o rosto da misericórdia do Pai busca o pecador.


Nós que somos os alvos da misericórdia de Deus precisamos buscá-lo e deixar-nos encontrar. É um movimento dos dois lados: Deus me busca e deixa-se encontrar. É um esforço de amor, de busca tanto da parte de Deus como da nossa.


Diz Papa Francisco na bula que “se não nos consideramos pecadores, fugimos dessa misericórdia de Deus, nos escondemos, não queremos que Ele nos veja”. Olhando as Escrituras, constatamos que Zaqueu, quando subiu a um sicômoro, fê-lo levado mais pela curiosidade de ver Jesus do que pela noção de quem realmente Ele era. Jesus teve de “pegá-lo com o cajado”. Nossas atitudes, por vezes, são bem análogas à de Zaqueu. Dizemos que não queremos nem ver nossos pecados, nos confessamos e, não obstante, vamos levando a vida sem levar em conta a sede de misericórdia que necessitamos para viver nosso “grande retorno”, nossa volta para Deus.


Por fim, outra parábola exemplar da misericórdia é a do filho pródigo (Lc15, 11-32). Nossa busca pela misericórdia deveria ser uma busca enlouquecida como contatamos na vida e ensinamento de nossos santos, a ponto de atrair o amor de Deus, gratos sempre ao lembrar do lugar de onde Ele nos retirou e os marcos de Sua presença em nossa caminhada. Que, pela escuta da Palavra de Deus e das obras corporais, possamos tocar na carne de Cristo nos irmãos necessitados de ser nutridos, vestidos, hospedados, visitados; e das espirituais aos quais aconselhamos, ensinamos, perdoamos, admoestamos e rezamos! Que seja esse ano dedicado a misericórdia, um “oásis de paz” uma abertura à ação de Deus que nos convida a “preferir a misericórdia ao sacrifício”!***



Bibliografia:

- Mensagem do santo Padre para a Quaresma de 2016.

- Bula: Misericordia vultus - “Rosto da Misericórdia” – Papa Francisco. 2015

- Evangelli Gaudium – A Alegria do Evangelho – Papa Francisco.

- Escola de Líderes 2016 – CCSH.

*Misericordiae Vultus 17

**Expressão usada pelo Papa Francisco na Exortação apostólica Evangelli Gaudium – A alegria do Evangelho.

***Mt 9,13

Dom João da Cruz.OSB é monge na Abadia da Ressurreição - Ponta Grossa/PR.


Estudou filosofia na PUC Minas e atualmente estuda teologia. Prega retiros na linha da espiritualidade para seminaristas religiosos e comunidades.

Contato: aquinomr@gmail.com


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